O que é a depressão? Saiba mais sobre esta doença

A depressão é uma doença médica real, com base biológica, psicológica e social. Não é apenas “estar triste”.

Tal como acontece com outras doenças no corpo, em que alterações num órgão provocam sintomas físicos, na depressão existem efetivamente alterações no cérebro que afetam a forma como sentimos, pensamos e reagimos.

Importa também referir que estas alterações não são iguais em todas as pessoas – a depressão pode manifestar-se de formas diferentes, tanto nos sintomas como nos processos biológicos envolvidos.

Trata-se de uma alteração complexa no funcionamento do cérebro, que afeta emoções, pensamento, energia e até o corpo.

A depressão é sinal de fraqueza?

Não. A ideia de que a depressão é fraqueza é falsa e prejudicial.

A depressão:

  • envolve alterações reais no cérebro (ainda que variáveis de pessoa para pessoa)
  • pode afetar qualquer pessoa
  • não depende de “força de vontade”
  • muitas vezes exige tratamento (psicológico e/ou médico)

Dizer que alguém com depressão é fraco é o mesmo que dizer que alguém com diabetes ou asma é fraco – não faz sentido.

O cérebro na depressão: o que muda?

O cérebro funciona através de impulsos elétricos entre neurónios e da libertação de substâncias químicas chamadas neurotransmissores.

Na depressão, vários destes sistemas podem ficar desregulados.

1. Comunicação entre neurónios (sinais elétricos)

Os neurónios comunicam através de pequenos impulsos elétricos e sinapses (ligações químicas entre células). Na depressão, podem ocorrer alterações como:

  • A comunicação tornar-se menos eficiente
  • Algumas redes cerebrais ficarem hipoativas (menos ativas), especialmente as ligadas ao prazer e motivação
  • Outras ficarem hiperativas, como as associadas a pensamentos negativos.
2. Neurotransmissores (química do cérebro)

Os principais neurotransmissores envolvidos são:

  • Serotonina → regula humor, sono, apetite
  • Dopamina → ligada ao prazer e motivação
  • Noradrenalina → relacionada com energia e atenção.

Na depressão pode existir um desequilíbrio nestas substâncias. Não é apenas “falta”, mas sim um funcionamento desregulado dos circuitos.

3. Hormonas e stress (cortisol)

O corpo responde ao stress através de um sistema que regula a produção de cortisol, a chamada hormona do stress.

Na depressão, este sistema pode ficar desregulado, levando a níveis elevados de cortisol e a uma sensação de “alerta constante”.

Isto pode afetar a memória, o sono e a forma como regulamos as emoções.

4. Estrutura do cérebro

Estudos mostram possíveis alterações em áreas específicas:

  • Hipocampo (memória e emoções)
    → pode diminuir de volume, com impacto na memória e na gestão emocional
  • Amígdala (processamento emocional)
    → pode tornar-se mais reativa, aumentando a sensibilidade ao stress e às respostas emocionais
  • Córtex pré-frontal (decisão e controlo emocional)
    → pode funcionar menos eficazmente, dificultando a tomada de decisões e o controlo das emoções.
5. Inflamação e sistema imunitário

Cada vez mais investigação mostra que a depressão pode envolver:

  • processos inflamatórios no corpo e cérebro
  • ligação entre sistema imunitário e saúde mental

“Tem tudo para ser feliz…”

É comum ouvir, quando se fala sobre alguém com depressão, frases como:

  • “Tem tudo para ser feliz”
  • “Tem um bom emprego, estabilidade económica, uma boa família…”
  • “Não percebo como pode estar com depressão”

Estas ideias partem de um equívoco importante: assumir que a depressão depende apenas das circunstâncias externas. Na realidade, a depressão não é causada apenas pelo que acontece à nossa volta.

Como vimos, envolve alterações no funcionamento do cérebro, incluindo neurotransmissores, hormonas e redes neuronais. Por isso, uma pessoa pode ter uma vida aparentemente estável e, ainda assim, desenvolver depressão.

Da mesma forma que alguém pode ter um problema de saúde física sem uma causa visível, também o cérebro pode entrar em desequilíbrio, independentemente das condições externas.

Isto não significa que fatores como stress, perdas ou dificuldades não tenham impacto – mas não são a única explicação.

Porque é importante compreender isto?

Quando dizemos “tem tudo para estar bem”, podemos, mesmo sem intenção:

  • desvalorizar o sofrimento da pessoa
  • aumentar o sentimento de culpa
  • dificultar a procura de ajuda

A depressão não é uma questão de “ter motivos” – é uma condição de saúde complexa, que nem sempre é visível por fora.

Às vezes, compreender totalmente não é possível – mas apoiar é.

Como ajudar alguém com depressão?

Quando alguém próximo está com depressão,, pequenas atitudes podem fazer uma grande diferença:

O que pode fazer:
  • Ouvir sem julgar
  • Levar a sério o que a pessoa sente
  • Incentivar a procurar ajuda profissional
  • Manter o contacto
  • Ter paciência.
O que pode dizer:
  • “Estou aqui para ti.”
  • “Queres falar sobre isso?”
  • “Não estás sozinho/a.”
  • “Se precisares, posso ajudar-te a procurar apoio.”
O que evitar dizer
  • “Tens de ser mais forte”
  • “Isso é só uma fase”
  • “Há quem esteja pior”
  • “É tudo uma questão de atitude”.

A depressão não se resolve apenas com força de vontade ou conselhos. É uma condição de saúde que pode necessitar de acompanhamento profissional.

A melhor ajuda que pode dar é estar presente, mostrar empatia e incentivar o acesso a apoio adequado.

Porque é importante compreender isto?

Perceber a base biológica da depressão ajuda a:

  • reduzir o estigma
  • incentivar a procura de ajuda
  • promover empatia
  • tratar a doença de forma adequada.

Se estiver a passar por uma depressão, saiba que não está sozinho. Procure ajuda.

Pedir ajuda é um ato de coragem. Se está em sofrimento ou conhece alguém que possa estar, procure apoio especializado. Linhas como a 1411 existem para escutar, orientar e dar um caminho a quem sente que não consegue continuar sozinho.

Linhas de apoio
  • Apoio Psicológico integrado na linha SNS24: 808 24 24 24 (24h por dia)
  • Vira(l)Solidariedade – Rede de Apoio Telefónico da Sociedade Portuguesa de Psicanálise: 300 051 920 (todos os dias das 08h00 às 00h00)
  • SOS Voz Amiga: 213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660 (odos os dias das 16h00 às 24h00)
  • Santa Casa da Misericórdia de Lisboa:  marcação consulta de psicologia por videochamada  através do site https://acalma.online/
  • Linha Conversa Amiga: 808 237 327 | 210 027 159 (dias úteis das 15h00 às 22h00 e fins de semana das 19h00 às 22h00)
  • Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar Ao Telefone com as Famílias: 213 555 193; info@sptf.pt (2ª a 6ª das 10h00-18h00)
  • Linha de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico: 1411 (24h por dia).
Outros recursos

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